sábado, 3 de agosto de 2019

Apoio à professora Vanicléia Santos

CARTA ABERTA EM APOIO À PROFESSORA VANICLÉIA SILVA SANTOS

Nos causaram espanto e indignação os ataques dirigidos a Vanicléia Silva Santos, professora de História da África da Universidade Federal de Minas Gerais, organizadora do Simpósio Internacional Novas Epistemes para o Estudo da África Pré-Colonial. Embora considerando legítima a reivindicação  de maior representatividade negra em qualquer evento e, especificamente, a crítica à presença desproporcional de pesquisadores/as branco/as em detrimento de pesquisadores/as negros/as, neste evento, entendemos que a natureza dos ataques dirigidos à organizadora e aos palestrantes, além de injustos, personaliza um debate que deve ser pautado pela compreensão do racismo estrutural presente nas universidades brasileiras e da própria formação do campo de História da África no Brasil, constituído – ainda e infelizmente –  por uma maioria de pesquisadores brancos. Para a África pré-colonial, tema do seminário em questão, a discrepância é ainda mais gritante.  

Em suma, o que se apresentou na composição das mesas do evento promovido pela UFMG é um recorte do campo de História da África no Brasil. Em comparação aos estudos sobre escravidão e pós-abolição, é ainda muito reduzido no Brasil o número de pesquisadores/as negros/as especialistas em África ou de africanistas em formação.

 Diante do exposto, consideramos a crítica à historiadora Vanicléia Santos desmedida, sobretudo diante de sua atuação nos últimos anos na consolidação desse campo de estudos no Brasil. Destacamos sua atuação como professora e orientadora, seu desempenho, durante muitos anos, à frente Centro de Estudos Africanos da UFMG, e seu engajamento em relevantes projetos internacionais, como a organização do volume X da Coleção História Geral da África da UNESCO. Embora nos juntemos ao coro que reivindica maior representatividade negra entre os pesquisadores africanistas, entendemos que o tom assumido pelas críticas em geral tenderam à personalização do debate, o que, não ajuda a compreensão e o combate ao caráter estrutural do racismo presente nas universidades brasileiras, reflexo do que é a sociedade brasileira. 

Sobre o evento propriamente dito, ele foi amplamente divulgado nas redes sociais (no Grupo de Estudos de África Pré-Colonial e no Centro de Estudos Africanos da UFMG), bem como nas listas de e-mails dos grupos de História da África. Após se esgotar a data final para o envio de comunicações, no dia 10 de julho, o prazo para inscrições foi ainda ampliado até o dia 15 de julho. A organização do evento deu oportunidade a que se inscrevessem pesquisadores dos mais diferentes recortes sociais, raciais e de gênero. Alguns de nós já organizamos eventos da mesma natureza e magnitude, e nos deparamos (por vezes nos frustramos) com dificuldades para compor fóruns acadêmicos representativos em termos de raça, gênero e origem regional. 
   
A virulência de alguns ataques desferidos contra Vanicléia Santos, pesquisadora negra que,  como muitos de nós, vem construindo uma carreira acadêmica sólida, combatendo diariamente o racismo estrutural e cotidiano e o machismo, comprometida com a formação da nova geração de historiadores negros, especialistas em História da África é, no mínimo, um gesto de automutilação. Por todas essas razões, nós abaixo assinados manifestamos nosso firme apoio à professora Vanicléia Silva Santos, compreendendo que o problema em questão precisa ser discutido no interior da universidade pública, mas sem personalizá-lo.

Subscrevem.

  1. Carlos da Silva Jr. (Professor, Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS)
  2. Lucilene Reginaldo (Professora de História da África, Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP)
  3. Wlamyra Albuquerque (Professora, Universidade Federal da Bahia - UFBA)
  4. Roquinaldo Ferreira (Professor, Universidade da Pensilvânia, EUA)
  5. Iacy Maia (Professora, Universidade Federal da Bahia - UFBA )
  6. Juliana Barreto Farias (Professora, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira - UNILAB)
  7. Josivaldo Pires de Oliveira (Professor, Universidade do Estado da Bahia - UNEB)
  8. Nielson Bezerra (Professor, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ)
  9. Tukufu Zuberi (Professor, Universidade da Pensilvânia, EUA)
  10. Luana Tolentino (Professora, Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP)
  11. Nilma Lino Gomes (Professora Titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Integrante do Programa de Ações Afrimativas na UFMG)
  12. Patrícia Santana (Professora, Prefeitura de Belo Horizonte)
  13. Etiene Martins (Professora e editora Livraria Bantu)
  14. Rogéria Cristina da Silva (Professora, Universidade do Estado de Minas Gerais)
  15. Iara Pires Viana (Assessoria da Subsecretária de Desenvolvimento da Educação Básica; Militante da Educação das Relações Raciais e Pesquisadora do Feminismo Negro)
  16. Erisvaldo Pereira dos Santos (Professor e babalorixá, Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP)
  17. Cidinha da Silva (Escritora)
  18. Macaé Evaristo (Ex-secretária de Educação do Estado de Minas Gerais)
  19. Mara Catarina Evaristo (Professora da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte) 
  20. Vaniléia Santos Brito (Ministério Publico de Minas Gerais)
  21. Renata Felinto (Universidade Regional do Vale do Cariri, Pernambuco)
  22. Vanessa Raquel Lambert (professora, Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF)
  23. Renata Bittencourt (Diretora Executiva do Instituto Inhotim)
  24. Kassandra Muniz (Professora, Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP)
  25. Juvenal de Carvalho (Professor, Universidade Federal do Recôncavo Baiano - UFRB)
  26. Jackson André Ferreira (Professor, Universidade do Estado da Bahia - UNEB)
  27. Flávio dos Santos Gomes (Professor, Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ)
  28. Mônica Lima (Professora, Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ)
  29. Rosane Pires Viana (Gestora e Pesquisadora de Literatura Africana e Afrobrasileira, Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG)
  30. Ana Lúcia Silva Souza (Professora, Universidade Federal da Bahia - UFBA)
  31. Itacir Cruz (Professor Adjunto de História/Instituto de Humanidades – Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira - UNILAB, CE – Líder do Grupo BALAFON – História, cultura e ancestralidade africana)




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