CARTA ABERTA EM APOIO À PROFESSORA VANICLÉIA SILVA SANTOS
Nos causaram espanto e indignação os ataques dirigidos a Vanicléia Silva Santos, professora de História da África da Universidade Federal de Minas Gerais, organizadora do Simpósio Internacional Novas Epistemes para o Estudo da África Pré-Colonial. Embora considerando legítima a reivindicação de maior representatividade negra em qualquer evento e, especificamente, a crítica à presença desproporcional de pesquisadores/as branco/as em detrimento de pesquisadores/as negros/as, neste evento, entendemos que a natureza dos ataques dirigidos à organizadora e aos palestrantes, além de injustos, personaliza um debate que deve ser pautado pela compreensão do racismo estrutural presente nas universidades brasileiras e da própria formação do campo de História da África no Brasil, constituído – ainda e infelizmente – por uma maioria de pesquisadores brancos. Para a África pré-colonial, tema do seminário em questão, a discrepância é ainda mais gritante.
Em suma, o que se apresentou na composição das mesas do evento promovido pela UFMG é um recorte do campo de História da África no Brasil. Em comparação aos estudos sobre escravidão e pós-abolição, é ainda muito reduzido no Brasil o número de pesquisadores/as negros/as especialistas em África ou de africanistas em formação.
Diante do exposto, consideramos a crítica à historiadora Vanicléia Santos desmedida, sobretudo diante de sua atuação nos últimos anos na consolidação desse campo de estudos no Brasil. Destacamos sua atuação como professora e orientadora, seu desempenho, durante muitos anos, à frente Centro de Estudos Africanos da UFMG, e seu engajamento em relevantes projetos internacionais, como a organização do volume X da Coleção História Geral da África da UNESCO. Embora nos juntemos ao coro que reivindica maior representatividade negra entre os pesquisadores africanistas, entendemos que o tom assumido pelas críticas em geral tenderam à personalização do debate, o que, não ajuda a compreensão e o combate ao caráter estrutural do racismo presente nas universidades brasileiras, reflexo do que é a sociedade brasileira.
Sobre o evento propriamente dito, ele foi amplamente divulgado nas redes sociais (no Grupo de Estudos de África Pré-Colonial e no Centro de Estudos Africanos da UFMG), bem como nas listas de e-mails dos grupos de História da África. Após se esgotar a data final para o envio de comunicações, no dia 10 de julho, o prazo para inscrições foi ainda ampliado até o dia 15 de julho. A organização do evento deu oportunidade a que se inscrevessem pesquisadores dos mais diferentes recortes sociais, raciais e de gênero. Alguns de nós já organizamos eventos da mesma natureza e magnitude, e nos deparamos (por vezes nos frustramos) com dificuldades para compor fóruns acadêmicos representativos em termos de raça, gênero e origem regional.
A virulência de alguns ataques desferidos contra Vanicléia Santos, pesquisadora negra que, como muitos de nós, vem construindo uma carreira acadêmica sólida, combatendo diariamente o racismo estrutural e cotidiano e o machismo, comprometida com a formação da nova geração de historiadores negros, especialistas em História da África é, no mínimo, um gesto de automutilação. Por todas essas razões, nós abaixo assinados manifestamos nosso firme apoio à professora Vanicléia Silva Santos, compreendendo que o problema em questão precisa ser discutido no interior da universidade pública, mas sem personalizá-lo.
Subscrevem.
- Carlos da Silva Jr. (Professor, Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS)
- Lucilene Reginaldo (Professora de História da África, Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP)
- Wlamyra Albuquerque (Professora, Universidade Federal da Bahia - UFBA)
- Roquinaldo Ferreira (Professor, Universidade da Pensilvânia, EUA)
- Iacy Maia (Professora, Universidade Federal da Bahia - UFBA )
- Juliana Barreto Farias (Professora, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira - UNILAB)
- Josivaldo Pires de Oliveira (Professor, Universidade do Estado da Bahia - UNEB)
- Nielson Bezerra (Professor, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ)
- Tukufu Zuberi (Professor, Universidade da Pensilvânia, EUA)
- Luana Tolentino (Professora, Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP)
- Nilma Lino Gomes (Professora Titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Integrante do Programa de Ações Afrimativas na UFMG)
- Patrícia Santana (Professora, Prefeitura de Belo Horizonte)
- Etiene Martins (Professora e editora Livraria Bantu)
- Rogéria Cristina da Silva (Professora, Universidade do Estado de Minas Gerais)
- Iara Pires Viana (Assessoria da Subsecretária de Desenvolvimento da Educação Básica; Militante da Educação das Relações Raciais e Pesquisadora do Feminismo Negro)
- Erisvaldo Pereira dos Santos (Professor e babalorixá, Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP)
- Cidinha da Silva (Escritora)
- Macaé Evaristo (Ex-secretária de Educação do Estado de Minas Gerais)
- Mara Catarina Evaristo (Professora da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte)
- Vaniléia Santos Brito (Ministério Publico de Minas Gerais)
- Renata Felinto (Universidade Regional do Vale do Cariri, Pernambuco)
- Vanessa Raquel Lambert (professora, Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF)
- Renata Bittencourt (Diretora Executiva do Instituto Inhotim)
- Kassandra Muniz (Professora, Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP)
- Juvenal de Carvalho (Professor, Universidade Federal do Recôncavo Baiano - UFRB)
- Jackson André Ferreira (Professor, Universidade do Estado da Bahia - UNEB)
- Flávio dos Santos Gomes (Professor, Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ)
- Mônica Lima (Professora, Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ)
- Rosane Pires Viana (Gestora e Pesquisadora de Literatura Africana e Afrobrasileira, Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG)
- Ana Lúcia Silva Souza (Professora, Universidade Federal da Bahia - UFBA)
- Itacir Cruz (Professor Adjunto de História/Instituto de Humanidades – Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira - UNILAB, CE – Líder do Grupo BALAFON – História, cultura e ancestralidade africana)
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