Nas últimas semanas, Feira de Santana (BA) tem ouvido falar
bastante sobre um movimento de intervenção artística no chamado Beco da Energia,
especialmente através da mídia alternativa. Trata-se de uma viela que liga a
Rua Marechal Deodoro ao Beco do Mocó, no agitadíssimo centro da cidade. O Beco da
Energia, sempre foi um espaço
marginalizado da cidade pelo fato de funcionar ali algumas casas de atividade
de profissionais do sexo, mas também ocorre durante o dia um grande comércio
ambulante de miudezas, além de bares e residências domésticas. Resumindo, é o
Beco da Energia uma comunidade habitada e frequentada por uma população majoritariamente
negra e pobre da Cidade de Feira de Santana. A marginalização desse espaço não
foi algo que se iniciou recentemente. Identifiquei nos arquivos policiais um
processo criminal que tratava de uma briga num agitado samba na década de 1940.
Ao abordarem o caso crime, as autoridades policiais falavam horrores da vida
social nesta localidade, como sendo ambiente frequentado por indivíduos de alta
periculosidade, isto sempre ocorreu com outras comunidades negras. Desta forma,
toda referência que a cidade fazia ao Beco da Energia, era de cunho pejorativo
e de degradação social. Mesmo as autoridades políticas nunca se importaram com
os cidadãos e cidadãs feirenses que vivem nessa localidade. Nos últimos dias,
por razões despretensiosas, um conjunto de artistas da cidade, estimulado pelo
músico, tatuador e grafiteiro Márcio Punk, começou a deixar as suas marcas coloridas
nas estragadas e maltratadas paredes do Beco, dando formas e cores há um dos
espaços mais marginalizados da cidade. O curioso de tudo isso é que as pessoas
que ali habitam, ao contrário das autoridades políticas locais, passaram a reconhecer
a importância dessa intervenção. No último domingo, esta brincadeira que foi
ganhando
proporção não esperada, reuniu um conjunto enorme de pessoas que se
identificam com as atividades culturais da cidade para cantar, dançar e gritar em
muitas cores no inesquecível evento intitulado “Jam no Beco”. Cheguei logo cedo com o meu mano Rios
Vibration (músico e capoeirista) e aos poucos fui identificando os grafiteiros
pendurados nas paredes, guitarras, baterias e equipamentos percussivos sendo
testados e de forma bastante espontânea cada um tomava o microfone e deixava o
seu recado na linguagem que o mesmo dominava: declamação, reggae, soul, blues,
samba, rock, etc. O beco foi tomado por um processo de reterritorialidade,
sendo que desta vez não foi pela força da relação de poder que sempre
marginalizou seus moradores. Desta vez os moradores foram os “donos e as donas
do pedaço” que permitiram todo este rio de cores e ritmos que sacudiram o “Beco”
com muita “Energia”!*Por Bel Pires
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